quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

A misoginia seletiva do escritor Yann Moix.


Adoro mulheres de todas as idades, há nelas a mão divina que acertou o traço pelos olhos do poeta, deu-lhes a geometria do corpo e da alma, fez delas a música que embala o desejo e cultiva a paixão.

Vem isto a propósito do escritor francês Yann Moix (50 anos) que declarou, à revista Marie Claire, que as mulheres, depois dos cinquenta anos, são velhas para serem amadas. Este escritor francês, premiado, traduzido, com uma história de vida nada fácil – como ele refere -, assume que “não precisa de responder ao tribunal do gosto”.

Podia discorrer sobre alguns traços de personalidade, mas não seria justo nem intelectualmente honesto. O homem que, também é escritor, tem toda a legitimidade de ir para a cama com quem quiser. Cada um vê nos seus fantasmas a misoginia seletiva que explica muitas das suas opções. Um escritor tem, também, uma responsabilidade social que não deve esquecer em qualquer circunstância. E Yann Moix esqueceu essa responsabilidade. A sua infeliz afirmação tornou-o, infelizmente, mais conhecido do que desejaria.

Mas ficamos a saber pelo próprio Yann Moix, a propósito do seu livro Naissance (2013),  que "A vida de Yann Moix contada por Yann Moix é insuportável de se ler. Uma escrita ilegível que conta uma vida inabitável, isso é demais para mim. A vida é curta demais para ler a longa vida de alguém como Moix."


António Vilhena

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Marcelo sabe ser grato.


Eu não sei se o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa telefonou espontaneamente a uma apresentadora de televisão – ele é surpreendente e surpreende-se a si próprio. Mas tendo em conta as boas relações com o dono da estação, Dr. Pinto Balsemão, possivelmente terá havido uma conversa de orelha. Não se esqueçam que o Professor Marcelo é um guru das televisões, mas, também, trabalhou no Expresso, sabe ser grato e não deixa que lhe deem lições.

Prevejo que o Presidente o fará mais vezes para outros canais e protagonistas, ele sabe o que se escreveu nas redes sociais e não deixará de dar a resposta no momento mais adequado. 

Se o Presidente tivesse telefonado para um canal público teria tantas críticas? Provavelmente o Presidente não precisaria de o ter feito, bastaria uma mensagem de felicitações, mas Marcelo Rebelo de Sousa gosta de ser a notícia da notícia. O que pode mais pode menos e eu prefiro um Presidente assim, com alguns excessos, do que um cavaquista sorumbático e a comer com a boca cheia para não falar aos jornalistas.


António Vilhena

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Portugal para os que dão o litro.


Somos porreiros, somos excecionais, somos campeões, somos tolerantes e acolhedores; somos parcimoniosos com fascistas, promovemos os que mataram, os que transpiram ódio e defendem o regresso ao passado. Somos um país de brandos costumes, com uma alma que chega para quase todos. Às vezes, não chega para os que dão o litro, para os que se esforçam e envelhecem à espera que a esperança traga alguma novidade.

Temos o melhor Ministro das Finanças da Europa – que coisa maravilhosa! -, numa altura em que os populismos saem à rua e se formam novos partidos acenando aos saudosistas. Temos alguma imprensa que confunde liberdade com audiências. Temos tanta gente a precisar de estudar, urgentemente, História – diria que basta o século vinte onde encontra muita matéria que justifica o esforço.

Vivemos tempos de retrocesso civilizacional, onde os Trumps, os Bolsonaros e outros escalam a Democracia para ascenderem ao poder. Há muita responsabilidade na esquerda que foi capturada pelo grande capital, que se deixou engravatar para participar nas cimeiras dos senhores do mundo. A resposta é uma luta sem tréguas aos que põem em causa as conquistas da civilização, os direitos e o desenvolvimento e, principalmente, os valores do humanismo.

Se não o fizermos, estamos a ser cúmplices e não estamos à altura das responsabilidades dos que deram a vida por tudo o que somos e conquistámos.


António Vilhena


sábado, 5 de janeiro de 2019

NEM AZUL, NEM ROSA!



Qual é a cor da liberdade? – perguntava Jorge de Sena. Talvez a pergunta do poeta de 40 Anos de Servidão ainda faça sentido, quando em pleno século XXI uma ministra ousa ignorar que uma mulher veste a cor que quer e um homem também. Eu dispo-me de preconceitos e protesto contra a segregação do Pantone.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

NÃO NOS ILUDAMOS.


Quando mudar a página do calendário para 2019, quase nada terá mudado no mundo: a América terá Trump, o Brasil receberá Bolsonaro, a Síria alimenta Assad, a Venezuela morre com Maduro e alguns países de África banalizam a morte como gostas de chuva. Dirão que ainda faltam aqui muitos na lista – estou de acordo.

Mas estes exemplos servem para não nos iludirmos com a chegada do novo ano. Há mudanças possíveis, e essas são as que cada um pode fazer na sua vida, nas relações com aqueles que nos estimam e amam, com os que nos motivam a crescer e a cultivarmos a bondade. Esta mensagem é, principalmente, para os que sabem que são incondicionalmente solidários e fraternos. Apesar de a esperança ser o alimento da mudança, cultivo a utopia que nos agiganta a subir as montanhas. 


VOTOS de BOM ANO 2019.


António Vilhena
  

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Carta ao PAI NATAL.



Quando vejo as fotos dos meus filhos, Rodolfo e Susana, é do Natal que me lembro. As suas fotos bebés fazem-me mergulhar no Natal verdadeiro, no seu simbolismo universal de todas as latitudes, independentemente da crença ou do Deus. S. João Evangelista propaga sempre a luz e todos nos sentimos irmãos dos coríntios. A liturgia perpetua-se nas vozes dos poetas, na construção paciente das palavras, na lenta transformação da natureza. Apesar do convite à bondade, é, também, nesta quadra que a hipocrisia é rainha, muitos sentem-se realizados por se lembrarem dos mais desprotegidos, por darem migalhas, por publicitarem o bem. Assim, podem celebrar o Natal mais apaziguados, dormirão com a consciência tranquila e já podem fazer a ostentação da bondade. Depois brindam a um futuro que sempre foi igual ao seu passado e, assim, tudo continua igual. É preciso lembrar, ainda, que o Natal não transforma as pessoas más em boas, o Pai Natal não traz a poção mágica para derreter corações de pedra. Felizmente a bondade não é apanágio de católicos ou de ateus, de crentes ou agnósticos, é uma qualidade ao alcance dos que não resistem à generosidade e à humildade durante o resto do ano.

Sei que alguns amigos resistem, estão a contar os dias nos hospitais. Para esses vão os meus pensamentos. “A vida é lenta quando a morte tem pressa”, escreveu Miguel Torga. Mas a vida de todos os dias faz-nos cerrar os dentes, inventar as paisagens nas paredes brancas e ouvir sinfonias nos corredores da espera. Nestes momentos uma mão é equivalente a um jardim, uma prova de existência que alimenta a esperança onde a força é escassa.

Meu querido Pai Natal, lembra-te do Professor de Filosofia que ficou desempregado, que perdeu a casa, a família e passou a dormir sob as arcadas. E da avó que não tinha chocolates para dar aos netos. E da menina que adorava desenhar bonecas, apesar de não ter nenhuma. Não estou a fazer Literatura, tu conheces algumas destas histórias. Andas a correr mundo neste Natal e, por isso, deves visitar os mais fracos, os desprotegidos, os doentes, os idosos, aqueles que fecham os olhos para não verem a solidão. E, se puderes, coloca um pouco de bondade onde não crescem as flores.

Permite-me desejar-te persistência. Eu sei que é uma palavra pouco festiva, mas com ela eu posso motivar os que precisam de esperança; às vezes precisamos apenas de uma palavra, como de um dedo, como de um olhar. Às vezes, o pouco é o muito possível que ainda nos é permitido para respirarmos o que a natureza nos oferece. Persistência é uma espécie de coragem silenciosa que vive sob a pele, que não desiste de esperar pela manhã. Eu sei que não podes vestir-te de todas as palavras, mas, hoje, eu peço-te que me ajudes a escrever os nomes dos meus filhos. Vá, começamos devagarinho. Primeiro o do Rodolfo, depois o da Susana. Quando terminarmos, tu podes continuar a viagem e, assim, perpetuar os nomes de outros meninos, que hão-de lembrar-te, mesmo, quando não for Natal.


António Vilhena
  

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Carta a Manuel Monteiro.



Amigo e camarada de velhas lutas e utopias que ainda fazem sentido. Escrevo-te porque me sinto em falta com a memória e com o inesperado encontro que a poesia nos facultou na Festa Literária FOLHA Curia`18. Durante anos senti que te tinha perdido, que o teu nome era uma inscrição na memória de adolescente, que o abraço que me deste na Voz do Operário, em Lisboa, quando Arafat estava refém das armas de Israel, tinha sido um verso perdido na emoção do momento. Como estava enganado! A palavra juntou-nos num abraço longo e sentido na manhã dos Poetas Ensonados. Foi bonito reconhecer-te ao longe entre a folhagem. O teu passo era lento mas seguro. Abrimos os braços como velhos amigos separados por um rio que derrama as suas águas. Foi preciso esperar algumas dezenas de anos para que o leito do rio nos permitisse reencontrar a lágrima indomável da memória. 
Gostava de te dizer que me emocionas sempre, há em ti o prodígio dos que resistiram sem pedir nada em troca, o olhar licoroso da amabilidade e a simpatia dos homens generosos que reconhecem nos seus irmãos a fraternidade sem acrimónia. Reencontrar-te foi uma espécie de regresso de Ulisses a Ítaca, entre a esperança e o testemunho do uivo dos lobos. Sei que a tua coluna já não pode transportar as caixas de livros, que a tua Feira da Ladra ficou triste e que os teus velhos livros trazem muita histórias e cansaços. Não falámos de política, não ousámos resgatar as velhas palavras dos "ismos" ao baú, mas vivemos o humanismo da "poesis" herdada dos gregos, do arquitecto Vitrúvio, construtor de templos intemporais. Agora, recordo-te no palco entre poetas, oiço-te com a tua voz grave e rouca içar um véu de perfume sedutor. Agora, recordo-te seguro das verdades universais e das dúvidas sem idade. 

Se te escrevo, desta maneira, quase privada, é para que saibam que existes na tua insubmissa inquietação. A mesma que nos trouxe de longe, como canta José Mário Branco. Estou feliz por te ter reencontrado, onde a palavra nos convoca, onde a natureza nos interpela, onde a solidariedade nos ensina a agigantar-nos nas fragilidades. Porque é justo dizê-lo, foi a poesia da humanidade que nos juntou onde as palavras perdidas tinham quebrado os nós, foi a esperança que se soltou da Caixa de Pandora, pela mão de Prometeu, que se cumpriu o nosso abraço.

António Vilhena

sábado, 6 de outubro de 2018

A fobia dos lobbies.


Não sei se sentem o mesmo que eu, mas há uma atmosfera poluída que teima assemelhar-se aos tempos do antigamente, onde qualquer sombra era suficiente para denunciar a mosca que persiste no voo. Há uma transumância de fação que nos quer encurralar, escolhe-nos as palavras, as frases que entendem que devemos usar, porque nos querem impor a sua visão das igualdades. E a moda está a pegar como se isso fosse uma receita divina, a voz absoluta do Areópago.

Os defensores oficiosos das "denúncias" sem julgamento são os mesmo que afunilam a democracia, mesmo que digam o contrário, mesmo que façam manifestações e pintem os rostos. Nunca precisei de certos movimentos para defender as igualdades, nem de certos "ismos", para denunciar os que se escondem no aburguesamento da família para serem de esquerda. Respira-se um certo medo de dizer algumas coisas, com as palavras vernáculas, com o português dos avós, porque os meninos e as meninas com sotaque se ofendem.

Apetece-lhes servir um Mário Viegas ao pequeno-almoço, ou um José Vilhena. A hipocrisia cresce na meta-linguagem de certos interesses puristas, de certos grupos e lobbies que descobriram que defender os grilos pode ser um bom negócio. Os que lutaram contra o racismo, contra as ditaduras, os que lutam pela dignidade humana sem pensarem no género, os que defendem a liberdade de expressão, este fio condutor da dignidade humana merece-me toda a admiração. Vivemos tempos de fobias. O Papa Francisco é uma grande inspiração quando tudo parece reduzido a ser tudo ao mesmo tempo. 

António Vilhena

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Coincidências da Justiça


Há momentos que se tornam inesquecíveis, pelo aparato, pelo escândalo e, principalmente, pela vergonha. A Justiça é o pilar fundamental das sociedades, mas todos queremos uma Justiça cega, imparcial e célere; todos desejamos que a Justiça não seja contaminada pelas induções da comunicação social ou de qualquer outro poder. Em democracia os poderes estão bem definidos: à política o que é da política e à justiça o que é da justiça. Mas, às vezes, fica a percepção que há uma agenda política oculta e alguns corredores onde a justiça e a política se eclipsam. 

O recente caso Centeno deixa-nos as maiores dúvidas e perplexidades. Quando se sabe dos escândalos da banca, de perdões de dívidas na ordem dos milhões, é estranho que o Ministério Público tenha ido na conversa do bandido, nas parangonas de pasquins que têm interesses claros e não se coíbem diariamente de o demonstrarem.

Sabe-se que este ministro é um factor de perturbação, mas por boas razões. Sabe-se que há quem deseje substituir-se à Casa da Democracia e ponha as garras justiceiras ao serviço da hipocrisia e da calúnia. O cinismo esconde-se atrás de muitos mantos, de muitas fardas, de muitos poderes, arrastando para a lama aqueles que pelo exemplo se vão das “leis da morte libertando”. As coincidências da Justiça são como os eclipses, estão estudados e adivinham-se.


António Vilhena

sábado, 16 de dezembro de 2017

O país de saltos altos.



O caso Raríssimas serve para muitas reflexões, mas os mesmos do sistema teimam em manipular o ângulo da objectiva. Eu não sei se as gambas e os vestidos de Paula Brito lhe retiram o estatuto de “uma grande mulher” pelo que fez na instituição, eu não sei se o caso surge numa altura em que a Altice se prepara para comprar a TVI e o governo torce o nariz, eu não sei se aqueles que denunciaram a situação fizeram tudo o que deviam quando exerciam funções na mesma instituição. Eu tenho as maiores dúvidas e a única linha que me guia é a da ética republicana: servir e não servir-se.

Mas este país de saltos altos é histriónico e corporativo, grita quando uma mosca pousa no bolo e cala-se quando o pasteleiro tira macacos do nariz; fica enfurecido, as “tias” rosnam quando as sombras das suas frustrações lhes tomam os passos, escrevem contra um ministro e a uma juíza que não pensam da mesma maneira, insultam, julgam-se donas da verdade e funcionam como casta superior. Mas não as vejo com a mesma indignação contra os que defraudaram os portugueses no caso BES, não as vejo com a mesma argumentação contra os que prestam assessorias na Raríssima e outras instituições como a EDP e Fundações, em que uma senha de presença vale tanto como metade do ano do ordenado da maioria dos portugueses. Estas “tias” pensam que o país é o Terreiro do Paço, mas, a maioria delas, nem sabe qual é a pata direita do cavalo de D. José.

A gritaria ensurdecedora e a fulanização de Paula Brito ameaçam fazer esquecer que a Raríssimas precisa de continuar, que há quem investigue as irregularidades e, em última instância”, os tribunais cumprirão o seu dever. O manto de suspeição que se respira, e que não deve ser generalizado, exige uma resposta rápida. O país não suporta mais o coro das “tias” que nos querem obrigar a andar de saltos altos.
António Vilhena

                                                                                                                       

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Mostrar os dentes.


A maioria das pessoas que publica fotografias nas redes sociais preocupa-se em mostrar que está feliz. Neste mundo onde o efémero parece imperar, o que domina é o que parece, não o que se é ou se sente, mas uma fictícia felicidade que serve para alimentar a rede de ilusões. As poses que transmitem uma ideia de felicidade, mesmo naquelas pessoas que estão muito infelizes, são as que se mostram, cresce uma ideia de bem-estar a qualquer preço, desde que isso sirva para engordar a nuvem de uma vida virtual. As pessoas mais felizes procuram salvaguardar a sua privacidade, escolhem os momentos de interesse pessoal ou social, porque aprenderam que o melhor das suas vidas é privilégio da discrição. A inveja e outras dores de cotovelo revelam inimigos sem escrúpulos, gente ferida na sua autoestima que encontra nos outros o alvo das suas frustrações.

A necessidade de parecer feliz deu lugar ao parecer, a uma mentira colectiva. Há uma presunção de bem-estar embriagante que mais parece um laboratório de sugestão, convidando os pacientes a representarem. Mostrar os dentes ajuda a conquistar “amigos”, a influenciar expectativas, a dissimular fragilidades. A tendência parece ser “pôr a máscara” e fechar a porta à autenticidade. Mas todos sabemos que nada pode esconder o que somos, o tempo encarrega-se de desconstruir a teia que traz os fantasmas e outros minotauros à inquietação da vida. Mais vale ser do que parecer, ao menos os dentes servem para comer.



António Vilhena