terça-feira, 23 de julho de 2019

Centenário do poeta João José Cochofel (1919-2019).

O poeta João José Cochofel nasceu em Coimbra a 17 de Julho de 1019. Passam, por isso, este ano, cem anos do seu nascimento. Sabe-se ainda pouco sobre este homem que morou na Rua Doutor João Jacinto, em Coimbra, na Casa do Arco, ali perto da Sé Velha, em frente à Torre de Anto, associada a outro poeta, António Nobre, autor do “livro mais triste de Portugal”, SÓ. É preciso que se conheça este homem generoso que defendia com a mesma determinação as pessoas, os animais e as árvores. Nasceu no seio de uma família aristocrata, o seu bisavô, o Doutor João Jacinto, era lente de medicina, pessoa muito respeitada e reconhecida em Coimbra e no país, tendo sido homenageado em diversas circunstâncias. 

A Casa do Arco, proprietária dos Viscondes do Espinhal, foi comprada em 1883 pelo seu bisavô, tendo permanecido como a casa da família até 2003, em que foi adquirida pela Câmara Municipal de Coimbra, tendo sido requalificada em 2010, e devolvida à cidade como espaço cultural, conhecida, hoje, como Casa da Escrita. O poeta João José Cochofel faleceu, em Lisboa, com 63 anos (1919-1982). Mas que importância tem este poeta? Para Coimbra tem uma relevância extraordinária, porque foi cúmplice da utopia de um coletivo de homens empenhados que viviam na cidade com ligações estreitas a outros escritores que prosseguiam uma transformação da sociedade. E era na sua casa, na rua com o nome do seu bisavô, João Jacinto, que se encontravam Joaquim Namorado, Fernando Namora, Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Álvaro Feijó, Vitorino Nemésio, Fernando Lopes Graça, José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Eduardo Lourenço, Mário Soares e Maria Barroso.

Esta geração de homens, com sólida formação social, frequentavam a casa do poeta, unidos e empenhados, através das Artes, nomeadamente, da Literatura, em operar um debate de ideias que mudasse a situação em Portugal. Para isso recorreram à edição de livros e de revistas. João José Cochofel foi um dos principais responsáveis e fundadores das revistas Vértice, Presença, Altitude, Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Integrou a geração de escritores do neorrealismo como poeta e crítico. Foi muito mais do que isso, foi um fraterno anfitrião do aconchego, acolheu na sua casa amigos e próximos, não lhes regateando o essencial, principalmente, a solidariedade da família. 

A Academia sabia onde o encontrar para ouvir os seus conselhos ou para solicitar a sua disponibilidade para as suas lutas. A sua ligação muito forte a Joaquim Namorado, referência política e ideológica de uma geração comprometida, haveria de condicionar a sua poesis, através de uma certa cortina dual que se antecipa no seu livro “Emigrante Clandestino” (1965). A ainda difusa inquietação do Eu poético surge nos versos “Vem aí a manhã / Para que quero eu / a manhã que vem?”.

O poeta, segundo Fernando Guimarães, fez a sua iniciação no número 52 (Julho de 1938) da revista Presença com três poemas: “Posse”, “Paraíso Perdido” e “Tardes”. Curiosamente, apenas “Paraíso Perdido” não foi excluído do seu filtro, tendo sido publicado em “Búzio” (1940), com pequenas alterações. João José Cochofel reuniu as suas obras poéticas em “46º Aniversário” e “O Bispo de Pedra”. Assim, em “46º Aniversário” temos: “Instantes” (1937), “Búzio” (1940), “Sol de Agosto” (1941), “Os Dias Íntimos” (1950), “Quatro Andamentos” (1964) e, ainda, o inédito “Emigrante Clandestino” (1965).  Em “O Bispo de Pedra” agrupou as obras “Uma Rosa no Tempo” (1968) e “Água Elementar” (1975). O livro de “Críticas e Crónicas” (1982), é publicado no ano da sua morte. 

É obrigatório lembrar a coleção de livros com orientação estética neorrealista, chamada Novo Cancioneiro, que foi editada em Coimbra entre 1941 e 1944: “Terra” (1941), de Fernando Namora; “Poemas” (1941), de Mário Dionísio; “Sol de Agosto” (1941) de João José Cochofel; “Aviso à Navegação” (1941), de Joaquim Namorado; “Os Poemas” (1941), de Álvaro Feijó; “Planície” (1941), de Manuel da Fonseca; “Turismo” (1942), de Carlos de Oliveira; “Passagem de Nível” (1942), de Sidónio Muralha; “Ilha de Nome Santo” (1942), de Francisco José Tenreiro e “A Voz que Escuta” (1944), poemas póstumos de Políbio Gomes dos Santos. Foi esta geração que modelou a vida e a obra do poeta de que se comemora o centenário do seu nascimento. Deram expressão a uma literatura de sopro marxista, opondo-se a uma claustrofobia social. José João Cochofel foi um dos mais puristas da língua, exercitando a lapidação da palavra poética, “depurando o discurso” e oferecendo ao leitor uma luz onde a transparência da modernidade deixava adivinhar uma intimidade quase clandestina. 

Na biblioteca de Cochofel era fácil encontrar quase tudo, talvez, por isso, a sua imensa cultura e conhecimento sobre o que se escrevia e pensava na Europa, permitia-lhe que “estivesse na posse dos segredos do respetivo fabrico”, praticando um humanismo num vocabulário que o levaria à “descoberta que a arte implica”. O poeta perseguia a estética em busca da “Água Elementar”, a trilogia: melodia, ritmo e acompanhamento. Resgato um fragmento do poema excluído “Cidade provinciana”: Há belezas inexprimíveis / nesta cidade provinciana. // É nesta cidade que hoje me enternece / e outras vezes me enche de tédio, / de revolta. // Que poesia / entretanto existe / nas coisas nulas!



António Vilhena